quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Quase 18

Texto que fiz aos 18 anos sobre intercâmbios para um jornal de Palmas - TO.


Parece que foi ontem, finalmente iria viajar. Me preparei para aquilo que eu chamava de sonho, para a grande oportunidade da minha pequena grande vida. Eu ainda na sala de embarque não acreditava que estava a caminho da Europa, daquele mundo que chamamos de primeiro. Ali, eu sabia que podia crescer e evoluir em um tempo menor se eu estivesse no Brasil. E essa ideia de alcançar aquilo que se quer é a sensação mais maravilhosa do mundo, de primeiro mundo.

Seria lindo eu dizer que vivi coisas maravilhosas, que me deparei com pessoas que só me ajudaram e que no fundo vivi muito mais do que sonhei. Seria lindo dizer que naquele mundo, as ruas não têm buracos, nem lixo, nem mendigos. Mas a realidade é muito mais crua quando nos conhecemos um lugar novo e acabamos vendo que nada daquilo imaginado é real. Não digo que as ruas são muito emburacadas, mas existem sim buracos, e falando literalmente, muito mais fundos do que nas ruas perto da nossa casa.





A gente descobre que o sentido de casa é muito maior quando você sai dela com 17 anos. Você de longe acaba apreciando e acaba valorizando o pão-nosso-de-cada-dia. Ficar doente não significa mais faltar um dia no colégio e tomar canja ou comer arroz com purê - normalmente preparada pela mãe. Você não pode faltar no trabalho, e não tem alguém que faça e traga comida pra você.... então antes de ficar doente você pensa, não posso ficar. É ai que a gente começa a colocar o casaco porque “vai fazer frio na volta” e vamos descobrindo nossos limites. A voz da nossa mãe se torna a voz da nossa consciência e todas aquelas preocupações, acabam fazendo sentido pra você. Ainda mais quando você passa seu aniversario tão esperado de 18 anos longe de casa e não tem mais aquele dia de rainha que você tinha, não tem mais presentes ou bolos de chocolate-brigadeiro, mas garanto a boa sensação de estar se virando, o seu presente é estar ali, aonde chegou. Ainda mais com 18 que dá aquela sensação de tudo pode.

Aprendemos também que os costumes, as manias, a cultura e a língua são realmente diferentes da nossa realidade mas que a bondade e maldade do ser humano é igual no mundo todo. A gente se sente útil trabalhando, responsável por pagar as próprias contas e feliz por não estudar mais trigonometria na escola, porque afinal nunca compreendemos para que serviria.  Tudo que a gente vive na viagem é valido, mesmo as dores e as dificuldades. Eu, particularmente, tive muita dificuldade com os meus documentos para estar legal na Europa, repeti a frase tenho quase 18 muitas vezes porque só a partir da maioridade poderia iniciar processos sozinha. E o desencadeamento disso provocou várias outras dificuldades como não encontrar um trabalho, não ganhar dinheiro e não conseguir fazer as coisas sozinha. Descobri que não é o fim do mundo quando as coisas não são como planejamos. Reparei que, maioria das vezes, a vida assume o controle e nos encarrega de mudar de posição e seguir outros caminhos. Mas me diga, qual é a graça da vida sem imprevistos e mudanças de rumo? Tenho certeza que ir foi a melhor coisa que eu fiz e voltar foi a segunda. A vontade de explorar ainda mais só aumentou. Meus sonhos engrandeceram e amadureceram. Tenho certeza que quando voltar, voltarei mais esperta e ligeira. E tudo o que eu fiz, de me jogar, de procurar, de querer, de ter sido ingênua e muito pirralha, valeu completamente a pena. Antes eu não sabia, mas hoje sei que com certeza foi para o meu melhor e realizei que nenhum sonho é impossível. Eu ainda vou voltar para o mundo.

Depois de longos meses na Europa e tornar a casa, eu não me sinto mais responsável nem mais livre mas agora conheço quem sou eu em estado de emergência, saco melhor quais são os meus limites e sei que posso conquistar os meus objetivos ainda. A experiência é muito rica e se você tem vontade de fazer FAÇA, porque foi a melhor coisa que eu fiz na minha GRANDE (agora não mais pequena) VIDA.

Luiza Della Nina - Agosto de 2007 

Verão de 2007 - Osimo - Marche - Italia


Há exatos 6 anos atrás escrevi esse texto e ainda hoje ele cai como uma luva.



Um comentário :

  1. chorei um pouco ao ler isso.... reescreva essa história vc tem tempo pra isso....

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